terça-feira, agosto 22, 2006

Cartas para Zero Hora (Final) -- ZH tenta controlar os danos??

Recebi uma resposta "de luxo" à carta enviada à Zero Hora na semana passada: Direto da seção Cartas ao leitor da edição de 20/08/06, que transcrevo abaixo. Os grifos são meus. Comentários ao final.


Informe Especial

20/08/2006
CARTAS AO LEITOR


Foto Manipulada por Adnan Hajj/ZH

Em nenhum momento da cobertura do conflito Israel x Hezbollah obtive qualquer informação em ZH sobre dezenas de casos de fraudes fotográficas (Reuters), fotos posadas por militantes do Hezbollah abusando das vítimas em Qana (AP) - reclama o leitor Luís Afonso Assumpção, de Porto Alegre.


Caro Luís Afonso,

Sua carta permite esclarecer os critérios de ZH sobre fotografia. Condenável eticamente, a manipulação de imagens não é novidade na cobertura de guerras. Com a facilidade permitida pelo computador, porém, ela se tornou mais comum.


A imagem citada, feita pelo fotógrafo libanês Adnan Hajj, mostra as conseqüências de um bombardeio israelense na periferia de Beirute. Com o auxílio de um programa de computador, Hajj alterou a foto (Veja comparação nas fotos, manipulada esq., original dir.) para mostrar uma fumaça mais intensa subindo dos prédios atingidos. A agência de notícias Reuters, que contratou os serviços de Hajj, só descobriu a distorção da imagem depois de ela já ter sido transmitida para centenas de jornais.


ZH não publicou a foto porque não assina o noticiário da Reuters. Durante a cobertura da guerra, eram despejados nos computadores da editoria de Mundo pelo menos 600 textos diários sobre o conflito. Infelizmente, é uma escala muito grande de informação para o espaço limitado nas páginas do jornal.


No caso específico, abrimos mão de noticiar uma fraude que não foi publicada em ZH para ceder espaço a outras informações de maior relevância jornalística, como a dor das vítimas dos bombardeios tanto do lado israelense quanto do lado libanês.


É importante salientar também que, segundo o Manual de Ética e Estilo da RBS, "os veículos da RBS não manipulam ou distorcem imagens ou áudio no todo ou em parte".

Por fim, vale destacar que imparcialidade é uma preocupação permanente de ZH. Tanto que, no caso específico da crise no Oriente Médio, ZH foi o único jornal brasileiro a enviar o mesmo profissional aos dois lados da guerra. Como repórter que permaneceu 17 dias no Oriente Médio, cobrindo o drama de israelenses e libaneses, posso lhe garantir, caro leitor, que a guerra é feia dos dois lados.


Um abraço. Rodrigo Lopes, editor assistente de Mundo e enviado especial à região do conflito

Comentários:

Pela resposta acima, ficou claro que ZH aproveitou-se de minha carta para - finalmente fazer o que deveria ter feito quando as denúncias de manipulação correram o mundo, duas semanas atrás - INFORMAR aos seus leitores sobre os graves casos de manipulação de fotos divulgadas pela agência Reuters.
Ou seja: Na coluna de resposta a um leitor ZH se dá ao luxo de "informar" o que não havia informado antes.
Minha nova dúvida é se não houvesse a minha carta será que ZH se lembraria de informar aos seus leitores?Mas qual seria a intenção por trás de esconder um fato tão relevante?

Rodrigo Lopes responde à esta pergunta objetivamente no terceiro parágrafo :

" para ceder espaço a outras informações de maior relevância jornalística, como a dor das vítimas dos bombardeios tanto do lado israelense quanto do lado libanês."

Para ZH, carregar mais nas cores dos dramas pessoas dos Libaneses, vítimas civis dos bombardeios israelenses, é muito mais importante do que mostrar que muito desta mesma dramaticidade foi forjada por uma imprensa extremamente anti-israelense e anti-americana, por tabela.

É um exercício de retórica a afirmação de que as vítimas israelenses também são mostradas. Sim, são mostradas. Mas mais na forma de "contagem de corpos" do que a o retrato tão pessoal das vítimas libanesas.

O tom padrão dos relatos de israelenses mortos é dado por este trecho , de 14 de agosto:

"O Hezbollah lançou ontem pelo menos 153 foguetes contra o norte de Israel, matando um homem de 83 anos e ferindo pelo menos 91 pessoas."

Notaram a sutil diferença?


Outro fato que ZH não denunciou - deveria estar muito ocupada entrevistando simpatizantes do "presidente" Fidel - é a onda de crescente ceticismo de leitores e bloggers contra a grande mídia - no caso a Associated Press - e sua ânsia de defender um suposto militante do Hezbollah (conhecido como o "capacete verde") do qual tirou dezenas de fotos, com horas de diferenças entre elas, exibindo os mesmos corpos de crianças vitimas dos bombardeios em Qana.

Aliás, todo o comentado massacre na cidade de Qana tem sido re-avaliado: o número de vítimas caiu para a metade e claros casos de abusos das vítimas para fins de propaganda do Hezbollah têm sido reportados.

Nada disso também foi tido como "importante" para Zero Hora.

Por quê? Por que o mesmo Rodrigo Lopes realizou uma reportagem no dia 31/07/06 onde republicou frases atribuídas ao suposto "funcionário da defesa civil libanesa" [ "- Filmem isso para os europeus e americanos. Isso é a civilização que nos trazem - gritava um homem com uma criança morta no colo".] (o nosso velho conhecido do capacete verde) e até mesmo algumas das famosas fotos "posadas" em Qana.

Veja a foto de nosso famoso personagem publicada em ZH e sua legenda...

Funcionário da defesa civil libanesa carrega o corpo de uma pequena vítima
Foto(s): Nasser Nasser, AP/ZH

A conclusão final é de que minha carta - respondida desta maneira - foi muito mais uma tentativa de "controle de danos" de ZH do que qualquer outra coisa.
Só houve o comentário aberto sobre o fiasco da Reuters por que ZH não publica fotos desta agência.... De forma que "pimenta nos olhos dos outros...".
Mas ZH publicou também inverdades, ou pelo menos fotografias e declarações preparadas para chocar o público. Este é o caso da foto da Associated Press e do comentário reproduzido aqui.
Concordo com o fato de que com milhares de informações/fotos/reportagens é impossível checar a veracidade de tudo o que é publicado, mas neste caso é uma questão de desonestidade com o público
- Não informar seus erros, intencionais ou não
- O fato de ZH ter um reporter na zona conflagrada é ainda mais grave pois o profissional poderia checar a veracidade do que lhe era apresentado por sua própria percepção.
ZH falhou em ambos .
Neste caso ZH acabou com suas mãos sujas. De marrom.

PS.: Um relato honesto da guerra pode ser obtido nesta entrevista do reporter da Rede Globo Marcos Losekan ao "Mais Você" de Ana Maria Braga, em 31/07/06.

Outros Links:

Carta enviada à Zero Hora.

Cartas publicadas em ZH

Post sobre a primeira carta ("Fidel é presidente")

Post sobre Falsificação imagens Líbano (1)

Post sobre Falsificação imagens no Líbano (inglês1)

Post sobre Pallywood

Um comentário:

Freeman disse...

Muito bom o post!! Eu tinha colocado algo mencionando o "photoshop libanês" mas a sua carta e posterior análise foi bem mais a fundo.

A gente não pode deixar passar batido. Tem sempre que cobrar esse nosso jornalismo "imparcial".