quinta-feira, setembro 21, 2017

Como ser um Libertário

Libertário, que eu defino como um individualista e não como um coletivista, pode ser definido em um plano de coordenadas cartesianas x-y ("propriedade"-"liberdade").

Como seu plano de definição é bidimensional, assim também é o seu campo de atuação.

A premissa de saída é que todos respeitam a "propriedade privada" e que não há necessidade nenhuma de leis ou Estado: cada um que garanta a sua sobrevivência, com os meios que achar necessário. Ah, mas não pode haver crime.

E garantem que é um sistema bastante simples e que pode ser aplicado automaticamente em qualquer lugar do planeta.

Após analisar a questão detidamente tive de concordar com pelo menos uma premissa: a de que é auto-aplicável, não "em qualquer lugar", mas em "algum lugar" do planeta. Este lugar, é claro, é o quarto onde os libertários habitam. Nestas zonas de wifi ilimitado, com todas as regalias que uma boa mobília, guarda roupas lotado, claro, com banheiro privativo, de preferência, é onde estas regras funcionam à perfeição. Pelo menos até a hora de definir quem lava a louça do jantar.....







terça-feira, agosto 29, 2017

Um resumo de minha visão de mundo.

Não acredito que tudo acabe com a morte, muito menos que tenhamos mais vidas para gastar: fico em algum ponto entre estes dois pólos.

Não acredito que o homem seja somente um animal, muito menos que seja completamente espiritual: é parte um e parte outro, onde não sabemos onde termina um e começa outro - temos somente pistas.

Acredito no "livre arbítrio", só duvido da capacidade do homem em praticá-lo.

Não creio que o Estado deva ser tolerado, mas tolero menos ainda o Estado de um homem só.



  

quarta-feira, julho 20, 2016

Criando Raskolnikovs

O resultado de décadas de  doutrinação ideológica no Brasil é que hoje nem existe mais - como havia até os 2000 - a intenção de disfarçar  que os cursos de formação intensiva de revolucionários "bucha-de-canhão" disponíveis em versão pública e privada sejam "educação". É descarado.
Os cursos são profissionalizantes e oferecem um leque variado, de acordo com a suas inclinações , confiram:

  • Depilação Transgressora
  • Como Agasalhar Objetos em Orifícios Variados de Seu Corpo como Forma de Protesto
  • A  Arte da Defecação Revolucionária
  • Como Destruir uma Sala de Aula para Salvar a Educação
  • 1001 Maneiras de Usar Fotos de Jair Bolsonaro 


Fora o humor, é tão evidente a decadência total do ensino brasileiro que as soluções que vislumbro são as seguintes:

  1. Tentar, via parlamentar, leis que protejam as crianças de se tornarem "drones" ou "Raskolnikovs" - acredito que ainda exista, no parlamento brasileiro, gente preocupada com as famílias e os rumos desta educação. Esta é a iniciativa onde o "Escola Sem Partido" se encaixa.
  2. Oficializar o home schooling de modo que cada família possa educar seus filhos longe dos verdadeiros hospícios nos quais se transformaram as escolas do Brasil. 


terça-feira, março 15, 2016

Da Ingenuidade à Cumplicidade...



Perdôo tudo o que gostavam nos anos 90: Snap!, Corona, Rozalla, Spin Doctors, Nirvana, The Cranberries, menos o "Ética na Política"....

Três dias dias depois de ter aterrissado de volta em Porto Alegre (depois de um hiato de mais de um ano e alguns meses) e dois dias depois das manifestações gigantescas de 13-03, ao invés de falar do presente, resolvo rebuscar o passado. Por que o presente é apenas uma das alternativas possíveis do passado que deu certo. Ou "serto".

Tudo por que o que aqui vi e sigo vendo causa-em espanto e o meu instinto de investigação clama por uma explicação racional.

Por quê , aqueles que tanto lutaram pela "ética na política" nos anos 90, hoje dizem que "todos somos corruptos"??

Que trajetória é esta em que alguém parte de uma quase declaração a de auto-santidade para uma outra em que todos são "ladrões" como ele?

Como disse, ninguém pode ser culpado pelos gostos e preferências políticas dos anos 90, que começaram com a posse de Fernando Collor - candidato no qual voltei e até fiz campanha aberta! Tudo por que achava que Lula era um sindicalista metido demais a marxista e já estava cheio de marxistas depois dos meus anos na faculdade.

Aliás, a faculdade (de engenharia) me fez ficar cheio de comunas e marxistas. De "convergências socialistas" e tudo isso. Quem me influenciou não foram nem Marx & Hegel (ops!) e muito menos Lenin & McCarthy: foram Herman Hesse e Fiódor M. Dostoievski. Mas isso é outra conversa.

Pois bem, os anos 90 viram o impeachment de um Presidente acusado de corrupção, mas que foi retirado do poder por um processo eminentemente político, uma vez que o simples fato de haver acusações e alguma evidência já eram motivos para minar a credibilidade de um governante. O processo efetivou-se pelo clime de "ética na política" vigente, que cobrava uma moralidade quase santa aos governadores e políticos.

Pois bem, o movimento "ética na política" - que inflou o PT nos anos 90 - era desde o princípio uma isca para apanhar incautos.

Idealistas são ingênuos como crianças e como elas sempre disponíveis para serem utilizados como massa de manobra.

Quem lembra dos estudantes enviados à morte na Guerrilha do Araguaia enquanto que o seu líder-mor João Amazonas (PCdoB) ficava na segurança do seu bunker?

Mas vamos o que interessa: "ética" segundo o google é "conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade." O termo, portanto, nunca significou uma "moralização" da política, mas simplesmente a aplicação de um conjunto de valores de um grupo - no caso o PT - à política brasileira. Quem entendeu "ética" como sinônimo de "moralidade" (auto)enganou-se: a "ética" era a do partido e não os valores morais aos quais a maioria do povo brasileiro concorda.

A veracidade desta afirmação foi comprovada na prática que o partido desenvolveu ao longo de suas administrações locais, culminando com as administrações nacionais de Lula e Dilma.

Mas como nossos pobres idealistas reagiram quando perceberam a a distância da "ética" do partido com a "ética" pela qual acreditaram lutar? Depois da fase de auto exame e crítica, com o aparecimento do mensalão em 2005, acreditei que muitos cairiam na realidade e rejeitariam por completo aquele engodo, abandonando a "causa" do partido. Devo dizer que muitos abandonaram o barco nesta altura. Outros criaram o PSOL ou migraram para outras partidos de esquerda, o que dá no mesmo -devem ter feito apenas por "desencargo de consciência" inútil, como tomar anticoncepcional depois de ter relações. Finalmente há os que permaneceram em estado de "suspensão" da capacidade de raciocinar por algum tempo, até que as novas "ordens" do partido chegaram.

Depois do advento do mensalão, a tática do partido foi a de começar a produzir dossiês com acusações falsas e outras nem tanto, para que pudessem a partir daí passar a circular a mais hipócrita "defesa" que alguém já pensou em criar: "todos são corruptos", que passou rapidinho para "todos somos corruptos", no que foi absorvido pelos antigos militantes.

Há muita gente enganada que se recusa a admiti-lo e que pelo contrário passa a defender o que port tanto tempo odiou simplesmente para não dar a outra face; para não dizer que abandonaram a causa, pois natimorta era desde o início, acabam por se tornarem-se parte do tecido morto. Ao se manterem agarrados ao cadáver insepulto de uma causa morta, acabam por deterioram-se a si mesmo.

Eu sei que "todos somos corruptos", que todos fazemos pequenas patifarias. Que somos imperfeitos. Mas é mesmo no reconhecimento de quão ruins somos é que nos faz amar cada vez mais a verdade e a justiça. É por que ela nunca terá na espécie humana a sua completa realização. Mas é a sua busca que nos torna melhores. A busca da verdade e da justiça com desapego a causas, bandeiras e antigas crenças é o processo alquímico final, é ele que poderá tornar nosso ferro oxidado por tantas mentiras e auto-engano em ouro. E mesmo que não consigamos, é sempre melhor morrer na tentativa do que pela desistência.



quarta-feira, julho 01, 2015

O Futuro do Pretérito


Há muita gente que acredita mesmo em "evolução" social. Eu sou cético a respeito.

Só podem acreditar em "evolução"  (que seria a progressão infinita de tudo e todos , a começar pela "matéria", em novos e desconhecidos desenvolvimentos espontâneos  e que trariam sempre "um benefício" a todos, não importa o quê ) os que nada sabem sobre o passado.

Aliás a própria ideia de futurismo pressupõe uma negação total ao passado. Mas como podemos saber se "avançamos" sem nada saber do passado? Como ter uma medida de comparação ? Resposta: Não é para ter certeza. Devemos "acreditar" e ponto final. Marinetti, o "papa" do movimento futurista, propunha exatamente isso como a base do seu movimento paródico : o total despego ao exame da história ou outra evidência externa. E é assim mesmo que reagem os devotos da fé progressivo-futurista: Se é moderno é bom e é bom por que é mais novo.

Pois bem, aos que propõe sua "certeza absoluta" no progresso e evolução da humanidade - eu leio estas expressões em obras datadas desde o século XIX, no mínimo - não conseguem responder o porquê, depois de dois séculos de "progressivismo", o que vemos em volta é barbárie, não civilização.

Assim, ao analisarmos a história, pelo menos duas referências saltam-me aos olhos: Primeiro, o comportamento das massas hodiernas parece o dos personagens centrais de "Satyricon" de Petrônio. Obra que retratava a decadência romana. (Oh! "Decadência"?! Os arautos do progressivismo não pensam que na mesma trilha da "evolução" , podemos enunciar "extinção em massa"....); Segundo, a "decadência" é mesmo resultado da opulência, segundo Ibn Khaldun. O germe da decadência situa-se nas mesmas origens que possibilitaram o "progresso". Para falar de algo mais exato, Ibn Khaldun explicava a "decadência" numa tragédia de três atos-gerações, sendo a primeira a "criadora" ou conquistadora seguida de uma estável e onde o ímpeto original fenece rapidamente e a terceira geração, chamada de "destrutora" que passa a desfazer, pedra por pedra tudo o que foi construído anteriormente. Até que todo o edifício desmorone.

O mundo de hoje situa-se na terceira geração, a "destrutora". Que nada tem de original na sua "modernidade", como vimos, a não ser os meios de ação.

A situação atual poderia ainda ser descrita com alguns elementos adicionais, como o descrito por José Ortega y Gasset no seu profético "A Revolução das Massas" de 1926. A representação teatral perfeita disso podemos ver  Eugène Ionesco com sua obra "O Rinoceronte", de 1959.

Mas se é uma "decadência", o que virá depois? Toda a ideia de declínio também encerra em si mesmo o germe dos "novos tempos". O que podemos esperar?

Novamente, vivemos o futuro do pretérito. Este novo "futuro" já foi descrito em Orwell  - "1984" - no diálogo de Winston ( o último "ser humano") com o ideólogo partidário O'Brien, que revela o "novo mundo" ao incrédulo Winston:

O'Brien: "Controlamos a matéria por que controlamos a mente. A realidade está dentro de cada cabeça. Aprenderás aos poucos, Winston. Não há nada que não possamos fazer. Invisibilidade, levitação... Tudo. Eu poderia flutuar no ar, como uma bolha de sabão, se quisesse. Mas não quero por que o Partido não o deseja... Devias abandonar estas ideias do século dezenove sobre as leis da Natureza. Nós fazemos as leis da natureza!!!"

Winston:"Não fazeis! Não sois donos do planeta! O homem é minúsculo. Há quanto tempo existe?"

O`Brien: "Tolice. A terra é tão velha quanto o homem e nada mais. Como poderia ser mais velha?  Nada existe exceto pela via de consciência humana."

Winston: "Mas o universo inteiro está fora de nós (...)"

O'Brien: " (..). E daí? Imaginas que não podemos produzir um sistema dual de astronomia? As estrelas podem estar longe ou perto, conforme precisarmos. Supões que os nossos matemáticos não dão conta do recado? Esqueceste o 'duplipensar'???"

Resumo de nossa pequena pesquisa ao passado:

  • O progressivismo é uma espécie de fé. Mas da qual nunca se obtém "provas".Sabe-se. Se o cristianismo precisou da morte e ressurreição de Cristo, para provar-se verdadeiro, o progressivismo nada necessita a não ser o esquecimento seletivo do do passado.
  • Como tal, o progressivismo é uma crença "religiosa", e é por isso que se opõe à crença religiosa que moldou a própria civilização ocidental: a crença de um Deus exterior e na própria realidade exterior.
  • A religião do progressivismo é baseada na crença de que nós somos deuses. É por isso que o progressivismo não pode conviver ao mesmo tempo com a religião tradicional, por que ela não só se opõe à "agenda oficial" como mostra sua origem.

  • A história do homem, pela religião tradicional, diz que a primeira grande mentira foi contada ao homem e consistia em dizer-lhe que ele poderia ser "um
  • deus"!!! . O que veio a seguir é mais ou menos como Baudelaire dizia : "O truque mais esperto do Diabo é convencer-nos de que ele não existe."





sexta-feira, janeiro 09, 2015

Ibn Khâldun sobre os povos árabes



Segundo a "Wikipédia", "Abu Zayd 'Abd al-Rahman ibn Muhammad ibn Khaldun al-Hadrami ou Ibn Khaldun (Norte da África, atual Túnis[1] , 27 de Maio de 1332/ah732 — Cairo, 17 de Março de 1406/ah808) foi um polímata árabe[2] [3]astrônomo, economista, historiador, jurista islâmico, advogado islâmico, erudito islâmico, teólogo islâmico, hafiz, matemático, estrategista militar, nutricionista, filósofo, cientista social e estadista."


Aqui, suas considerações sobre seu próprio povo.


IBN KHÂLDUN – Historiador e Humanista
(J. Laginha Serafim) Pp. 57-58


(...) Pelas suas leituras da história sobre a evolução do mundo islâmico (desde a Hégira) e pela sua própria observação, Ibn Khâldun convenceu-se, quiçá sem toda a razão, vista hoje as coisas, da enorme degradação que se verificou nesse vasto mundo. 

É ele próprio que o diz (numa crítica, desajeitada e injusta, ao seu povo e à sua civilização); "Todas as terras conquistadas pelos Árabes rapidamente se arruínam" (M, I,302.) "A maioria dos homens cultos entre os muçulmanos é de nascimento estrangeiro." "De todos os povos, os Árabes são os menos hábeis para governar e têm a menor disposição para as artes; a maioria dos seus edifícios caem aos pedaços", e, finalmente, para os conquistadores: “São os povos menos civilizados que fazem as maiores conquistas”, ou ainda esta seleção: 

“Em todos os países que os Árabes conquistaram, desde os séculos mais remotos, a civilização desapareceu, assim como a população; até o próprio solo parece ter mudado de natureza.” 
“No meu país de origem (o Iêmen) todos os centros de população estão abandonados, com excepção de alguma grande cidade. O Iraque árabe sofreu a mesma ruína e todas as belas culturas que os Persas lhes cobriram as terras desapareceram. Em nossos dias, a Síria está arruinado; a Ifrigiyah (Tunísia e Líbia actuais) e o Magrebe (o Oeste do Egipto, mais especificamente o Norte da Argélia e o Marrocos de hoje – Maghrib al-Agsa e a Espanha muçulmana, ou Al Andalus) padecem ainda das devastações cometidas pelos Árabes.” 

“No quinto século da Hégira (século VI da era crista), os Banu Hilal e os Sulaim (das mais importantes tribos árabes tradicionais) invadiram estas províncias (do Oeste) e, durante três séculos e meio, obstinaram-se em devastá-las, reduzindo-as à mesma sorte miserável das outras, a tal ponto que as suas planícies tornaram-se desertos até hoje. Antes desta invasão, toda a zona que se estende desde os países dos Negros (Sudão) até ao Mediterrâneo (ocidental) era habitada; os vestígios da sua antiga civilização (fenícia, cartaginesa, grega e romana), os escombros dos edifícios e monumentos, as ruínas das cidades e das aldeias, ficaram sendo testemunhas das grandezas do passado.” (P, I, 264)..

Ibn Khâldun, alias, vai ainda mais longe nas suas acusações à maneira de ser dos Árabes, que talvez sejam exageradas, por não ter, quiçá, tida em conta outros aspectos muito positivos do seu esforço na expansão do islão, que ainda hoje se processa de uma forma pacífica – talvez única na história das expansões religiosas. Assim é que diz :(P, I, 265): 

De todos os povos da Terra, os Árabes são os menos dispostos à subordinação.” (P, I, 265) 
“De todos os povos da Terra [eles] são os menos capazes de governar um império”, e nenhum “forneceu tantas dinastias como a raça árabe” (isto é, foi o povo que mais se dividiu). (P,I,266)

quarta-feira, setembro 11, 2013

O Sucesso do "Mínimo": A Volta do Exílio da Alta-Cultura

Em 1979 o governo João Figueiredo promulgou a Lei da Anistia. Durante um debate que estendeu-se à toda a nação a tal "Anistia Ampla, Geral e Irrestrita" virou realidade.

Decantada em verso e prosa (como Elis Regina "O Bêbado e a Equilibrista " de Bosco e Blanc, ou a versão de "No Woman, No Cry" de Gilberto Gil) a anistia do governo militar permitiu a volta de centenas de exilados e auto-exilados ao país.Todo o país aguardou, festivamente e recebeu mesmo de braços abertos todos aqueles que "partiram num rabo de foguete" de modo a fechar de uma vez a chaga da divisão havida nos anos 60 e seguir em frente.

Infelizmente não aconteceu nada disso, pelo contrário. Começava aí o capítulo mais marcado da decadência da cultura no País. Decadência que foi não foi somente cultural, mas política e econômica.

Economicamente, o modelo adotado durante o regime militar, de cariz fascista/socialista em que um Estado forte "comanda" a economia criando toda a infra-estrutura e sendo dono de boa parte da indústria de base, dava sinais de esgotamento. A inflação comia o poder dos salários, como Beth Carvalho anunciava "depois que inventaram o tal cruzeiro, eu trago um embrulhinho na mão, e deixo um saco de dinheiro" (Saco de Feijão). Nos 80, década tida como "perdida", a inflação atingiria os dois dígitos mensais.  Na política, o modelo de bi-partidarismo, com Arena e MDB também se esgotava. Com a volta dos anistiados chegaria mesmo ao fim, dando lugar a um pluripartidarismo de araque, em que somente as legendas  de esquerda proliferaram.
Nada disso poderia ter tido êxito se não houvesse uma desconstrução cultural cuidadosamente planejada em ação.

O motivo era simples: nem todos que voltaram como o Fernando Gabeira, por exemplo, o fizeram para retomar suas vidas, viver e redescobrir o país. Nada disso, voltaram mesmo para "acertar contas" com seus algozes dos anos 60. Começava aí a guerrilha cultural - um dos flancos mais "modernos" da causa esquerdista, herdada diretamente dos protestos de Maio de 1968 (por isso Zuenir Ventura refere-se a ele como "O ano que não terminou") - em que o "movimento" se reagrupava e entrava num momento de análise dos erros e acertos.

Desta auto-análise saíram as conclusões do fracasso dos anos 60:
- O movimento foi elitista e intelectual, nunca atingiu o povão.
- O conservadorismo, principalmente da classe média, que obrigou o exército a  agir para resguardar a democracia.
- O exército, claro, a instituição que tirou-os do destino quse alcançado.


Para o primeiro caso, os "intelectuais" do partido escolheram um menino do povo - Luís Inácio da Silva, o Lula, líder de um movimento grevista inédito desde os anos 60 - a quem poderiam doutrinar para ser seu agente.

Para o terceiro, a única alternativa seria criminalizar os que impediram a vitória nos ano 60. Para isso mesmo a própria Lei da Anistia teria de ser revogada. Mas isso só poderia ser feito com o poder nas mãos...Por isso nada foi feito durante algum tempo.


Para o segundo, a tarefa era mais árdua e de longo prazo. Teria de ser combatida seguindo os passos de Antonio Gramsci. Desarmar os inimigos por dentro. Deslocar o eixo do senso comum. Para isso teriam de dominar os "formadores de opinião" do país. Nada que os manuais de tomada comunista já não conhecessem: obter o apoio do "beautiful people", dos intelectuais, promover os amigos, companheiros de viagem e idiotas úteis a formadores de opinião. Criar o "primeiro casal de coelhos", enfim, depois a coisa se reproduziria por si mesma.

As décadas seguintes correram céleres a partir destas premissas. A "queda" do comunismo em 1989 forneceu a cortina de fumaça ideal. Não se lutava mais a favor do comunismo, mas contra uma potência mundial hegemônica e perigosa. A formação do Foro de São Paulo, fortaleceu ainda mais os "vingadores" do continente, unindo-os a partir de Cuba. Ao meio da década dos 90, com a adoção do "politicamente correto", introduzido sob os auspícios do governo FHC, a dominação acelerava-se.

Mas eis que em 1996, alguém consegue perceber o que se passa lança o seu "J'accuse": "O Imbecil Coletivo" de Olavo de Carvalho.  "Fomos descobertos", devem ter pensado. Olavo foi combatido, debatido e sobreviveu incólume. Em terra de cego quem tem olho é rei? Não no Brasil.

À surpresa inicial e ao primeiros anúncios de primeira página sobre os debates acerca do livro ou de seu autor - que já proliferavam nos cadernos de cultura dos principais jornais do país - foi lançada uma "fatwa" (parecida com aquela lançada contra Salman Rushdie pelos "Versos Satânicos"): Ninguém poderia debater com Olavo, ninguém deveria citar Olavo, muito menos respondê-lo. Olavo de Carvalho deveria ser solenemente ignorado.

Olavo tentou, neste meio tempo, unir o que poderia ser a resistência contra a tomada avassaladora da esquerda no país, como setores do exército, dos liberais e dos conservadores. Não resultou.

Ao mesmo tempo, mesmo com a proliferação dos cursos que promovia em diversos locais no país (tenho o privilégio de ter sido um dos organizadores do curso em Porto Alegre, em 2004 e 2005)  , Olavo começou a ser combatido "por dentro", perdendo seu lugar como colunista em vários veículos importantes do país. Em 2005 deixa o país para um auto-exílio nos Estados Unidos.

A esta aparente vitória de seus retratores, começa uma tímida reação: Curso On-Line de Filosofia e o True-Outspeak. Com este último, Olavo conseguiu expandir a sua influência a niveis imagináveis.

Em 2013 um "olavette" de peso foi incluído à lista, e causa furor: João Woerdenbag, o Lobão. Ex-Blitz, famoso apoiador de campanhas do PT, Lula e etc, descobre a pólvora e lança um petardo. Com o nome de "Manifesto do Nada Na Terra do Nunca", espanta aos próceres da esquerda pelo conteúdo e enfurece-os pelas entrevistas onde cita Olavo de Carvalho.

Neste mesmo ano de 2013, enfim, é lançado um livro - que nem é inédito, pois trata-se de um "the best of" do Olavo, com os melhores textos publicados em diversos jornais e revistas do país entre 1997 e 2012 - "O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota", organizado pelo jovem aluno Felipe Moura Brasil. Sem publicidade, sem investimento em divulgação, é alçado aos primeiros lugares em vendas em todos as listas importantes do país.

À isso , somem-se as dezenas de entrevistas que o autor concedeu aos mesmos veículos que tentaram ostracizá-lo no passado, para imensa satisfação do seu público.

Estas reações, por espontâneas e marcantes, fazem concluir-me duas coisas:
- O Brasil ainda tem esperança, apesar de tudo. Há uma nova geração que percebe a verdade, mesmo depois de décadas de doutrinação, e que vai em sua busca.
- E sim, a Cultura parece ter voltado de seu exílio ao país.