quinta-feira, setembro 08, 2005

Cadê o meu país?



Sete de setembro de 2005. 10hs. Eu. Assistindo ao desfile em homenagem aos 183 anos de independência do Brasil.

O que era apenas para ser uma experiência protocolar para quem tem filhos pequenos – imaginei como meu pai deveria se sentir quando levava a mim e à minha irmã a eles - acabou se tornando algo pleno de significados.


O ano passado escrevi um artigo afirmando que a minha verdadeira pátria não era essa e sim uma outra pátria inexistente, mítica e inalcançável.


Pois durante os desfiles deste ano tive a exata sensação de haver vislumbrado o que poderia ter sido esta pátria inalcançável.


Tudo corria bem – quer dizer aborrecidamente normal- para um evento deste tipo. Lá estava eu , minha filha, bandeirolas na mão, à espera pelos próximos pelotões, quando algo aconteceu: adentraram na avenida num velho jipe, cuidadosamente lavado e encerado para a ocasião, os veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) da Segunda Guerra Mundial. Quando me deparei com aqueles bravos patriotas, orgulhosos trajando suas melhores fardas sob suas medalhas reluzentes, sua altivez, percebi que havia ali um verdadeiro sentido de pátria.

Nunca aplaudi algo ou a alguém tão calorosamente. Eu que sempre tratava eventos deste tipo com um sorrisinho irônico de contrariedade. Pois lá estava eu cumprimentando, aplaudindo e acenando com minha bandeira alguns dos verdadeiros heróis deste país. Pessoas que arriscaram a vida defendendo ideais de liberdade em outros países mesmo quando não os tinham em seu próprio solo.

Assim se sucederam os veteranos da guerra do Suez, representantes do exército, marinha e aeronáutica sob vôos rasantes de jatos em formação.


Por alguns mágicos instantes me senti conectado a esta pátria mítica, a que teria orgulho de pertencer. Agitei febrilmente a minha bandeira, aplaudi a todos que podia. Tudo estava bem. Até que a realidade bateu à porta: ao final do desfile vi pessoas vestidas não com as cores nacionais mas com slogans de “protesto” e camisetas de Che Guevara. Depois soube que o MST tinha tentado criar uma passeata de protesto ao final do desfile.

Não, não poderia existir uma pátria que conceda o mesmo espaço simultâneamente a heróis como os veteranos citados – responsáveis por nossas vitórias e a manutenção de nossa democracia – com idiotas úteis tratados como massa de manobra de uma a ideologia radical e anti-democrática.


De súbito voltei à realidade. Mas com uma percepção nova : o Brasil poderia ter sido a minha pátria verdadeira, real. Mas alguma coisa saiu errado no meio caminho. Temos uma bela representação material de pátria e até alguns heróis a louvar, mas não temos mais motivos para isso.


Num antigo filme de ficção científica – The Body Snatchers – pessoas reais eram substituídas numa pequena cidade por vegetais-clones extraterrestres sem alma nem emoção, apesar de fisicamente idênticos aos originais. O Brasil parece ter sido, em algum ponto de sua história, mais uma vítima destes vampiros de alma. Alguém trocou o meu país verdadeiro por este que aí está.


Então esta é a causa da minha estranheza com relação ao meu próprio país!! Vivemos num país falsificado e sem alma. Onde anda o verdadeiro Brasil? Não sei onde ele está agora, talvez nem exista mais. Ou talvez esteja em cativeiro em algum lugar esperando pelo resgate.


Pelo sim pelo não vou continuar saudando este pedacinho de país que sobrou: nossos bravos heróis das Forças Armadas.


5 comentários:

Norma disse...

Oi, LA! Ontem mesmo eu estava comentando com um amigo que passei a vida inteira, aqui no Brasil, procurando algo que hoje dolorosamente constato que não existe. O que é esse algo? Lendo seu post, algumas idéias me vêm à mente, mas todas elas remetem a uma só noção: solidez. Solidez de tradição, de cultura, de democracia (verdadeira). Mas, sobretudo, solidez intelectual - algo que só poderia se exprimir pela palavra identidade. Eu queria de todo jeito me apropriar de uma sólida herança intelectual de meu país, integrando-me nela e engrossando-a com minhas pesquisas, meus insights, meu sangue e meu suor, se necessário. Hoje vejo que tal é impossível, pois o que poderia se chamar "herança intelectual" não passa de uma sombra, um caldo indefinível agora diluído em um caldeirão de idéias prontas e forjadas nas fôrmas tóxicas do marxismo, do relativismo, do pensamento politicamente correto, abundantemente regadas e nuançadas de uma auto-indulgência e uma autovitimização que a história brasileira não logrou erradicar, apenas travestiu de ideologia e propaganda. Não, não fui ao desfile. Nem pensei no dia da independência, para falar a verdade. Apenas me lembrei do número de anos neste exílio involuntário, nesta procura inexata e dolorida que sempre fez parte de minha juventude, e reafirmei meu desejo de continuar buscando - em outro lugar.

Anônimo disse...

ESTE TEM O MEU APOIO

Beira-Mar pra Presidente da câmara dos deputados federais!
Vote certo, vote em quem já ta preso.

Anônimo disse...

ESTE TEM O MEU APOIO

Beira-Mar pra Presidente da câmara dos deputados federais!
Vote certo, vote em quem já ta preso.

Leonardo disse...

Luis, o Brasil real é o que esqueceu a FEB. O país que, quando ensina algo sobre o assunto nas escolas, diz que o Brasil entrou na guerra a mando dos americanos, omitindo os afundamentos de navios brasileiros pela Kriegsmarine.

O país real é o que fez com que o meu avô esperasse de 1945 a 1986 por um reconhecimento por ter quase dado a própria vida e tirado a de outros na Itália.

O Brasil real é o do MST.

Gaeth disse...

Acredito que enqto nos tivermos essa 'alegria' de ver nossos verdadeiros herois desfilarem, ficarmos indignados por esquecerem a parte de nossa historia que valeu a pena, sonharmos com o Brasil do futuro teremos forca e determinacao para virar o jogo.
Nossa heranca intelectual nao esta morta pois ainda existe a sombra dela.
Nao temos o direito de cruzar os bracos diante das manchetes, nosso dever como 'gente brasileira' eh fazer com que esse gigante levante.