sábado, maio 21, 2005

("I found that essence rare") - Minha descoberta racional do conservadorismo

Novo texto meu no Mídia sem Máscara:

Eis abaixo o texto integral: com o título original - uma citação de música da "Gang of Four" (que se diziam socialistas...) uma homenagem às avessas e mais a citação da paralaxe cognitiva com seu criador, Olavo de Carvalho...
---------------------------------------------------
"I found that Essence Rare" - Minha descoberta racional do conservadorismo

Sempre imaginei o ser humano como resultado concreto e final de um exercício de criação divino.

Isso pode ser um pouco religioso ou metafísico demais para um mundo que se acostumou a nivelar tudo por baixo, que simplesmente finge que o que não entende "não existe", mas é ainda a melhor explicação para o ser humano.


"Melhor" por quê? Oras porque não somos de maneira alguma "animais". Talvez a classificação do ser humano como representante do reino animal – feita pelo próprio ser humano – seja o único caso em que a famosa "paralaxe cognitiva"* Olaviana seria de fato autêntica. Explico: o simples fato do homem ser o único ser que tem a capacidade de classificar dentro de uma estrutura racional de significados todos os outros animais o deveria colocar automaticamente fora desta mesma classificação – afinal, nenhum dos animais analisados é capaz de tal façanha. Então o homem, quando classifica todas as espécies animais em filo, gênero e espécie, se coloca evidentemente numa visão superior a todos os animais. E o faz por estar fora desta mesma classificação. Foi nada menos do que uma tragédia o fato de que ao final do processo tenha ele mesmo se auto-classificado junto aos primatas, com um título nada animador de "animal racional". Nem o cargo de "rei dos animais" nos sobrou.


Pois bem, esta percepção de que estamos acima do reino animal em todos os aspectos, menos no "construtivo", é derivada de um senso comum. E a origem deste "senso comum", descobri agora há pouco, tem a ver com uma tradição conservadora.

Encontrei num dicionário na web uma definição de “conservador” absolutamente perfeita: “é o sujeito otimista com relação ao passado e pessimista com relação ao futuro”. É exatamente isto. E ainda acrescento que o pessimismo em relação ao futuro se dá na exata percepção de avançamos no tempo perdendo a cada dia pedaços ainda maiores de nossa própria humanidade. Num futuro não muito distante talvez nem o título de animais “racionais” possamos usar. O racionalismo é conservador.

Mas de onde surge esta sensação de perda? Não é nostalgia. Para mim é o simples ceticismo que acompanha qualquer análise minimamente racional da atualidade.

Descobri que o meu modo de funcionamento era mesmo este: sempre desconfiar de qualquer explicação inovadora ou "revolucionária", daquelas tipo "esqueça tudo o que você já viu sobre...". O fato é que não dá para esquecer, não podemos partir do zero a cada pseudo revolução. Este é o ponto. Se a “novidade” é inconsistente, prefiro ficar com a última explicação.



Este é o por quê do meu apego pelo capitalismo: não é que eu morra da amores por ele (já escrevi até que o "odeio" em post anterior), mas é o único sistema econômico que funcionou até hoje. E o que mais respeitou a liberdade individual e econômica , quando atrelada ao regime democrático.


O binômio capitalismo (liberal) de um lado e a democracia de outro são dois dos pilares básicos do que eu chamaria de "realismo" político/econômico. Considero como "realismo" tudo o que se pode estabelecer como verdade absoluta ou pelo menos a coisa mais próxima dela. No caso do capitalismo e a democracia ainda têm a vantagem de serem verdades perfeitamente mensuráveis: não há outro regime que possa ser considerado mais justo e mais eficiente em produzir riquezas e gerar satisfação material às pessoas.

O fato de haver milhares de pessoas lutando por ditaduras e pela implantação de alguma forma de comunismo hoje em dia, só me faz ver que existe outras verdades absolutas: a burrice e a apatia mental dos tempos atuais são incontestáveis.


Mas faltava alguma coisa: eu tinha elementos realistas para embasar minha defesa da liberdade política e econômica mas não para um sistema de valores morais ou "humanistas", em que se baseia o conservadorismo.

Mas havia a certeza de que o binômio democracia/capitalismo só pode existir num ambiente social no qual as pessoas compartilhem a mesma visão e os mesmos valores morais. É o que chamam de sociedade de confiança.

Voegelin observou como o “senso comum” era um grande diferencial nas sociedades britânicas e americanas. Um senso comum tão arraigado que "blindou" estes países às influências mais perversas do século vinte: totalitarismo nazi-fascista e comunista. O senso comum é também a minha base de avaliação do mundo. É uma percepção intuitiva de conservadorismo.

A base deste conservadorismo não é só a “nostalgia” do passado ou a manutenção de tradicionalismos. Significa que determinados valores não podem ser colocados de lado em favor de outros "mais evoluídos" simplesmente pela razão de que a "evolução" nunca ter sido provada.


A compreensão de que minha simpatia pelo passado era muito mais do que simples "nostalgia", mas a intuição de que elas abarcavam definições muito mais completas e complexas da própria humanidade, veio com o estudo dos filósofos clássicos.



A isto eu devo imensamente ao meu mestre Olavo de Carvalho: antes de tudo Olavo é um grande divulgador da tradição filosófica conservadora, traçando uma linha que vai dos antigos gregos até o judaísmo-cristianismo. Ao conhecer a história do pensamento filosófico, acabei por conhecer os fundamentos teóricos do conservadorismo.

Com isso pude enfim somar mais um sustentáculo – o mais importante – ao edíficio do capitalismo liberal e democrático. Sem uma base de defesa de valores conservadora, o edifício não se sustenta.

No mundo de hoje, isso é especialmente dramático.pois o curso do pensamento conservador acabou assoreado por toneladas de relativismos, pós-modernismos entre outros, que transformaram a filosofia num grande supermercado de idéias, sem que nenhuma contradiga outra.

Os tempos atuais avançam até para dizer que o conservadorismo, o realismo não passam de mais um relativismo...

Tomo como exemplo a obra do "filósofo" Charles Feitosa "Filosofia com arte" em que sob o capítulo "vantagens e desvantagens do relativismo" afirma que o realismo ( e os realistas) querem impor a "sua" visão a todos os outros. Cita como exemplo de "realista" o nacional-socialismo alemão... Do outro lado temos o relativismo, que é uma maravilha, pois "respeita" a todos os tipos de pensamento..

O autor só não explicou como "realistas" puderam relativizar até mesmo a existência de seres humanos como fizeram nazistas e comunistas...

Para finalizar: a descoberta da tradição filosófica na qual se baseia o conservadorismo foi para mim como se encontrasse, no fundo de uma caverna esquecida, um tesouro, uma essência rara. Nossa obrigação é a de guardar e espalhar esta boa nova às novas gerações.

*- “paralaxe cognitiva” é o fenômeno pelo qual o observador se coloca fora do campo de ação do fenômeno “universal” que pretende explicar. Exemplos: Marx explicando que à classe trabalhadora e não à burguesia pertencia o futuro da humanidade (Marx era um burguês); Maquiavel defendendo que o príncipe deveria em primeiro lugar eliminar os seus apoiadores e influenciadores, dando a entender que ele mesmo, Maquiavel, deveria ser uma das primeiras vítimas de sua invenção.

5 comentários:

JulioBelmonte disse...

"...o curso do pensamento conservador acabou assoreado por toneladas de relativismos, pós-modernismos entre outros, que transformaram a filosofia num grande supermercado de idéias"

Ótimo artigo Luís!!! Sobre o trecho acima, estou escrevendo um post a respeito. Qnd ficar pronto te aviso!

[]'s

Zanela disse...

Bem sobre o seu artigo posso apenas parabeniza-lo e endoçar com o velho dito onde se afirma que quem descrê de tudo, não está acreditando em nada, mas deixando-se acreditar por qualquer coisa.

att.

D.

http://zanela.blogspot.com

Luiz Simi disse...

Grande Luis! Finalmente saiu o artigo mais esperado dos últimos tempos! Fico feliz que você tenha conseguido colocar de forma clara e aberta as idéias que você tinha dentro da cabeca, mas que nao conseguir exprimir de forma lógica.

Acho que concordamos nos pontos essenciais (a questao da ética como algo nao-relativo, o binômio democracia-capitalismo, e a sociedade da confianca como elemento fundamental do sucesso de uma sociedade), embora tenhamos certamente divergências em pontos específicos (talvez mais relacionados à religiao do que à ética). Mas as bases, sem sombra de dúvida, sao as mesmas.

Vou provavelmente fazer algum comentário no "Livre Pensamento" a respeito dentro de alguns dias...

Bianca disse...

Luís:
Excelente artigo! Sólido e conciso(pelo comentário do Luiz Simi, você já estava para escrevê-lo há tempos? Se sim, valeu a espera).
É claro que a "citação obscura" ao seu blog deve-se ao fato de você ser um dos culpados pelos desavisados estarem deparando-se com o "Noite interminável"... :)
Lembro da cena do filme, sim. E é esse um dos sentidos do título.
Aliás, foi um filme homônimo, fraquíssimo por sinal, uma adaptação de um livro da Agatha Christie, que me deu a idéia. Essa é a vantagem de ser uma pessoa que esta sempre pegando elementos do dia-a-dia e fazendo suposições, estabelecendo relações, "viajando"!

Eduardo disse...

Ao contrário das pessoas acima, não estou comentando aqui para parabenizá-lo... Suas opiniões são fortes e eu respeito o seu ponto de vista, mas discordo quanto ao ponto do capitalismo e da democracia garantirem a liberdade. Você se sente livre (a questão não é mais ou menos livre)? A nossa democracia aprisiona cada vez mais... Muito do que nos é apresentado como "liberdade", não passa de farsa... Você já procurou saber como se deu o processo de formação do sistema capitalista, com base em quê se deu a vitória deste sistema!? Ou ainda, já se informou sobre o McCartismo!? Sabendo desses fatos é muito difícil defender seu ponto de vista sobre "liberdade"...