quarta-feira, junho 22, 2005

Considerações sobre a "Vontade"

Após a publicação da tradução do meu artigo sobre o filme "A Queda" ("Downfall"/"Der Untergang") no site Majority Rights, houve uma série de comentários sobre as origens do nazismo. Boa parte dele falando em termos de "consciência racial" e "vontade".

Estudando o material de Olavo de Carvalho sobre o "Manual de Dialética" de Lavelle pinçei algumas definições ou percepções sobre "vontade" ou "sentimento" versus "inteligência" que são a base destas considerações.

Fala Olavo (desta maneira ou mais ou menos parecida):
"O mau filósofo não apreende as limitações da realidade e da sua vontade. Fica a imaginar o infinito novamente como possível" ...

"A tarefa do filósofo é perceber a estrutura da realidade e o que é possível ou não. Isto o fará educar o seus próprios sentimentos e vontade, para ajustá-los ao que é real e factível."

A partir destas premissas podemos concluir que todo este papo sobre "vontade", não só está deslocado do tempo (era assunto nos anos trinta), mas também é uma falácia intelectual.
A questão principal é que deixar a "vontade" tomar o lugar que seria da inteligência no controle das ações do ser humano, o faz perder a correta percepção da realidade. Faz o ser humano agir de modo completamente descolado da realidade, como alguém que acha ser possível voar pela janela ou ter poderes de "super-homem".
Isto é o que explica o que aconteceu na Alemanha durante o nazismo. Pois tivemos uma exacerbação da "vontade" sobre a inteligência em nível de uma nação por inteiro.
Inteligência no sentido de "sabedoria" ou a apreensão da verdade é a busca do ser humano por milênios, desde Platão/Sócrates e Aristóteles, passando pela tradição Judaico-Cristão.

E o que é a vontade sem o controle superior da inteligência? Apenas irracionalidade.
Isto, a "vontade", junto com uma tal "consciência racial" reviveram no nazismo um universo mítico poético pagão, há muito derrubado por Sócrates na antiga Grécia.
O livre pensamento não tem nada a ver com "consciência racial" ou "vontade". Ele é fruto da correta apreensão da realidade.
E esta busca pela verdade que é o cerne do que chamamos de "pensamento conservador", seja Erich Voegelin, seja Olavo de Carvalho, que tenta trazer para o mundo de hoje o sginficado do livre pensar e suas responsabilidades. "Vontade" é outro nome para "destino", que é o oposto ao livre arbítrio.

Então conceitos como "Raça", "vontade" e "consciência racial" não são apenas temas de debate dos "anos trinta". Se analisar bem, pertencem a um universo pré-socrático.

3 comentários:

Fernando de Souza disse...

Muito legal o texto anterior e as reconsiderações, verei o filme.
Abraço

Jeea disse...

Muito boa essa reflexão, é simplista demais responsabilizar apenas a vontade, até porque tudo seria muito primário. A inteligência é que fornece o discernimento. Excelente puxar este raciocínio.

Marco Aurélio Antunes disse...

Se o "papo" sobre vontade fosse falácia intelectual, então o próprio Olavo teria caído nela, já que ele falou em educação dos sentimentos e da vontade... Ora, se Olavo disse que a tarefa do filósofo é perceber a estrutura da realidade e, assim, educar os sentimentos e a vontade, por que você afirmou que a vontade nada tem a ver com livre pensamento?
A oposição entre vontade e livre arbítrio precisa ser explicada.
E a busca da verdade está longe de ser uma característica distintiva do pensamento conservador, pois já existia muito antes do conservadorismo, e, mesmo que ocorra em pensadores conservadores, não é exclusividade deles.
Também não tem fundamento a tese de que "consciência racial", "raça" e "vontade" pertencem a um universo pré-socrático.