domingo, setembro 28, 2008

Fwd: Pró-Culpa - J.R. Guzzo - Muito interessante artigo!

No meu post anterior -- sobre minhas férias no Brasil- comentei o clima de "todos X todos" reinante no país, especialmente se fores branco, homem e heterossexual.
Pois este artigo, de J. R. Guzzo, publicado na Veja, chega às mesmíssimas conclusões.
Isto significa que ainda há pessoas que pensam no país. Infelizmente esta inteligência e bom senso não servem mais de guia ao país, mas apenas como contraponto.
A burrice estupificante esquerdista reina absoluta, enquanto à inteligência é dado o papel de simples crítica sem nenhuma aderência a quem define os destinos da nação.

Obrigado à Graça Salgueiro, do NotaLatina, pela dica. 

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Publicado na Veja, edição de 01.10.08


Pró-Culpa

J.R. Guzzo

"O Brasil será um país bem mais arrumado
quando tomar a decisão de concentrar-se na
multiplicação de chances para quem está
pior – e deixar em paz quem está melhor"

É raro passar muito tempo, hoje em dia, sem que o brasileiro comum se veja acusado de alguma coisa. Se algo está errado, se um grupo de pessoas tem um problema ou se alguém sofre um tipo qualquer de injustiça, o cidadão já pode ir se preparando: a culpa provavelmente é dele. A maneira de dizer isso é conhecida: "A culpa é da sociedade". Ou: "A culpa é de todos nós". A culpa também pode ser "das elites", ou "da classe média" – sendo pior, ainda, a situação dos que caem na classificação "elites brancas" e, pior do que tudo, "elites brancas do sul". A hipótese de que as pessoas atingidas por qualquer dificuldade da vida tenham alguma responsabilidade, por menor que seja, em sua situação não é sequer considerada. Os culpados são sempre os outros, e esses outros são sempre os que conseguiram um grau qualquer de sucesso, mesmo modesto, naquilo que fazem ou que são. Pouco importa se obtiveram isso em razão de mérito pessoal – na forma de esforço próprio, talento individual ou simples trabalho duro. Os responsáveis pelas carências alheias, na falta de alguém que possa ser acusado de imediato, são eles. É como acontece em certas rodas de pôquer: se depois de dez minutos de jogo ainda não deu para descobrir quem é o pato da mesa, cuidado – é quase certo que ele seja você. No Brasil de hoje, num leque de problemas que vai dos índios macuxis de Roraima aos meninos de rua de São Paulo, nem é preciso esperar tanto. O culpado não vai aparecer. Prepare-se, então, para ser denunciado.

Tome-se o caso dos índios de Roraima, para quem o governo deu uma reserva com área de 17 000 quilômetros quadrados. Resulta que há, na terra demarcada para os índios, gente que pelos mapas oficiais não deveria estar lá. Quem entra nesse tipo de bola dividida assume riscos; mas, enquanto o Supremo Tribunal Federal delibera a respeito, não apenas os fazendeiros que cultivam áreas na reserva se vêem em julgamento. Vai se formando, ao mesmo tempo, um vago clima de denúncia contra os "brancos" em geral, especialmente os que decidem ir para lugares como Roraima – ou para a Amazônia como um todo. Em outros tempos podiam ser considerados desbravadores, heróis ou patriotas, como o marechal Rondon ou Plácido de Castro. Hoje são freqüentemente vistos como bandoleiros.

O episódio de Roraima é apenas um entre muitos. Avança no Brasil, cada vez mais, um movimento nacional pró-distribuição de culpa – uma espécie de xis-tudo onde qualquer ingrediente pode entrar, desde que sirva para criar algum tipo de réu. O brasileiro é culpado pela pobreza em sua volta, pelas violências que ele mesmo sofre e, 120 anos depois da abolição, pelos problemas da população negra. Também é culpado por não ir para o trabalho em transporte coletivo, de bicicleta ou a pé. Cabe-lhe culpa pela degradação do bioma da Amazônia, do cerrado e da Mata Atlântica, embora muitas vezes nem saiba o que é o bioma. É acusado de não morar nas periferias, não ganhar o salário mínimo e não usar madeira certificada. É criticado por colocar seus filhos em escolas particulares – como se fizesse isso porque gosta de torrar dinheiro pagando mensalidade. É culpa sua, enfim, que o Brasil seja injusto, dentro da idéia pela qual a desigualdade é provocada por quem, individualmente, é melhor – e, como resultado disso, tem uma vida melhor. O problema, nessa maneira de ver o mundo, não é a escassez de maiores oportunidades para todos; é o fato de haver recompensas diferentes para resultados diferentes.

O sujeito oculto de toda essa questão, no fundo, é a hostilidade ao mérito. Ter mérito, para os agentes do Pró-Culpa, é prejudicar alguém. Não é um ativo; é um débito. Em vez de ser razão para incentivo, é algo a ser "compensado" – uma maneira disfarçada de dizer desencorajado, limitado ou punido. É animador, nesse clima, ver um político como o deputado Ciro Gomes observar que o interesse comum só tem a ganhar com o estímulo ao mérito individual – a "desigualdade positiva", diz ele. O deputado gosta de ver a si próprio como um homem de esquerda; mas não acha que isso o obrigue a ser cego. O que ele parece estar perguntando é: "Que culpa um cidadão tem de ser inteligente?". A isso se poderia acrescentar que também não há nada de errado em ser talentoso, eficaz ou em trabalhar mais – e, sobretudo, no fato de haver benefícios maiores para quem produz mais e melhor. O Brasil será um país bem mais arrumado quando tomar a decisão de concentrar-se na multiplicação de chances para quem está pior – e deixar em paz quem está melhor.

 

Publicado na Veja, edição de 01.10.08

4 comentários:

Jether disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Ele pode espernear o quanto quiser, mas a verdade é que a culpa do trânsito lento de SP é de quem decide se transportar pelas ruas por meio de carro ao invés de andar de ônibus, porque com o carro ocupa-se mais espaço na pista.

Agora, não estou com isso dizendo que passageiro de ônibus é melhor que motorista de carro. Muitos passageiros usariam carro se pudessem, contribuindo pra parar ainda mais.

E semana passada, eu confesso que andei de carro na cidade de SP.

Ernesto Heredia Dias disse...

Ocorre que, na maioria absoluta das vezes, também os acusados pertencentes as elites (quaisquer que sejam - ou mesmo que não pertençam à nenhuma, trata-se logo enquadrá-los em alguma categoria do momento que sirva de suporte para o ato condenatório) - são aqueles que trabalham até o mês de maio apenas para resgatar a cobrança de impostos (dia 19 de maio - foi instituido como "o dia da libertação" pois é até quando se deve trabalhar a cada ano no Brasil, para pagar os impostos), e depois vão trabalhar mais até o fim de agosto para comprar a educação, saúde e segurança que o governo deveria prover, mas não lhes fornece.

Ernesto Heredia Dias disse...

Ocorre que, na maioria absoluta das vezes, também os acusados pertencentes as elites (quaisquer que sejam - ou mesmo que não pertençam à nenhuma, trata-se logo enquadrá-los em alguma categoria do momento que sirva de suporte para o ato condenatório) - são aqueles que trabalham até o mês de maio apenas para resgatar a cobrança de impostos (dia 19 de maio - foi instituido como "o dia da libertação" pois é até quando se deve trabalhar a cada ano no Brasil, para pagar os impostos), e depois vão trabalhar mais até o fim de agosto para comprar a educação, saúde e segurança que o governo deveria prover, mas não lhes fornece.