quarta-feira, julho 21, 2004

Suécia, Welfare e eugenia

Fui acusado recentemente de ter "mentido" no artigo publicado no MSM sobre o welfare sueco. Na verdade o que houve foi um problema de tradução apressada e errada.

Onde se lê: "Nenhum novo emprego tem sido criado no setor privado sueco desde 1950." troque por "Nenhum novo emprego líquido tem sido criado no setor privado sueco desde 1950." Onde se lê: "...mais de 1 Milhão de pessoas estão sem trabalho e por volta de 4 milhões não tiveram emprego em 2003.." troque por "...mais de 1 Milhão de pessoas de um total de 4 milhões não tiverem emprego em 2003.."

Feito o registro, fica claro que o sentido do texto não foi alterado ou seja, a Suécia sofre com alto desemprego e baixa criação de novos empregos "líquidos".

Pesquisando sobre o modelo sueco e mais abrangentemente o conceito do welfare state, descobri uma notícia publicada em 1997 mas que foi aparentemente "esquecida" pelos meios de comunicação: a denúncia de um longo programa de esterilização em massa na Suécia, baseado na pseudo-ciência da eugenia. De 1935 até 1975 mais de 60.000 mulheres foram compulsoriamente esterilizadas.

A palavra eugenia nos remete diretamente à campos de concentração, Auschvitz e nacional-socialismo, não é mesmo?

Mas vamos aos fatos:

A denúncia - em 1997 era tornada pública a informação sobre o extendo programa de esterilização sueco "O painel dos investigadores determinou que 63.000 pessoas, a maior parte mulheres foram esterilizadas entre 1935 e 1975. Muitas das quais foram objeto deste procedimento por que foram consideradas racialmente inferiores ou mentalmente deficientes. Menores de idade, mentalmente retardados, epiléticos e alcoolizados estavam entre aqueles que foram submetidos à esterilização.." (fonte)

O autor - o autor da denúncia foi o jornalista Maciej Zaremba, que após um extenso estudo sobre o caso publicou a história no maior jornal sueco o Dagens Nyheter . ".. Zaremba leu tudo o que pode sobre esterilização na Suécia e em outros países (uma obra de referência foi "Eugenics and the Welfare State" do sueco Gunnar Broberg nunca editado em seu país de origem) - incluindo os EUA, onde esterilização forçada de pessoas mentalmente desabilitadas, certos tipos de criminosos entre outros foi legalizada em diversos estados desde 1907 e continuados até os anos 60. Na Suécia, no entanto, Zaremba aprendeu que o programa de esterilização foi baseado no estudo da eugenia, uma pseudo-ciência devotada a criação de uma 'raça superior'. Mas o programa foi expandido em 1941 para incluir qualquer sueco que exibisse um comportamento julgado pelo estado como 'anti-social'" (fonte)

As conseqüências - no mesmo ano de 1997 o caso foi oficialmente reconhecido pelo governo sueco e - depois de alguma hesitação - foi instituido um programa de compensação às vítimas. Na ocasião a ministra do social affairs, Margot Wallstrom , primeiramente fez pouco caso das denúncias: "Não havia nada de secreto sobro o programa de esterilização. Ele foi conduzido à luz do debate público num tempo que o suecos acreditaram que estivessem criando uma sociedade que seria objeto de inveja ao olhos do mundo". Suas declarações - depois da repercussão da história - mudaram para "O que aconteceu foi uma barbárie e os Sociais Democratas são parte de uma culpa coletiva que inclui a todos".

A extensão - Pela pesquisas, apesar de diversos países terem adotado a eugenia - especialmente a esterelização forçada -, é fato se notar que nenhum outro regime, com exceção da Alemanha Nazista tenha implementado um programa que tenha afetado um percentual tão alto da população como na Suécia. Ou seja, em termos per capita o programa eugênico sueco só perdeu para o modelo nazista. Se considerarmos no entanto somente a prática da esterilização forçada - uma vez que o regime nazista usou ainda de outros métodos como abortos, eutanásia além da simples eliminação dos "mais fracos" - vemos que o caso Sueco em termos percentuais é o maior de todos. Vejam:

Suécia - 0,70% da população afetada (62.000 de uma população de 8,9M)
Alemanha - 0,49% da população afetada (400.000 de uma população de 82M)

Estados Unidos - 0,02% da população afetada (64.000 de uma população de 288M)

Social-democracia e eugenia - foi alegado que o programa iniciou em 1935 na Suécia e que SOMENTE em 1950 os sociais democratas subiram ao poder. Errado. Os sociais-democratas tomaram a maiorias das duas casas no parlamento sueco em 1932. A participação dos outros partidos foi minoritária. O componente eugênico era parte fundamental do programa de governo social-democrata, pois apenas dois anos após sua subida ao poder o programa foi implementado.

Welfare e eugenia - Outra alegação é de que outros países adotaram a eugenia e não eram sociais-democracias. Certo. Mas o que está em questão não é exatamente o social-democracia , mas seu componente central o welfare. Todos os países que adotaram algum tipo de controle eugênico mantinham algum tipo de benefício ao estilo welfare. Incluindo os Estados Unidos, por exemplo.A explicação é brilhantemente explicada por Nick Gillespie , editor do "Reason magazine" no artigo "O Alto Custo do Bem Estar Social" "[As recentes revelações] mostram como um supostamente estado de bem-estar social, em que a Suécia tem sido longamente considerada como o exemplo primordial, ao final acaba criando uma sociedade fechada que deve se livrar de qualquer um que possam representar um gasto inútil de recursos públicos. De fato, a simples lógica explica por que a social-democracia sueca pôde ao mesmo tempo construir um modelo de estado de bem estar social e executar um programa de esterlização em massa".

As diferenças - diferentemente das práticas eugênicas em outros países - que receberam apoio científico e popular, este último em grande parte como uma forma de proteger os laços de família e tradições da invasão pela imigração e que eram basicamente aplicadas em casos criminais e deficiência mental - a eugenia dentro do welfare tinha o componente de engenharia social. Nos casos levantados durante os quarenta anos de sua prática foram catalogados como alvo da prática de esterilização forçada os considerados ou portadores dos "males" de inferiores, indesejados, portadores de deficiências (como falta de visão lateral), psicopatia, vagabundagem, baixo Q.I.( jovens que não tinham bom desempenho escolar poderiam ser objeto do programa de esterilização), aborto (em alguns casos a esterilização era obrigatória para se obter permissão da execução de um aborto "legalizado"), "criminosos" (gurias de 15 anos foram esterilizadas pelos crimes de ir a bailes ou pertencer a grupos de motociclistas bem como jovens rebeldes também entraram na lista por não terem "boa capacidade de julgamento"), orfãs (muitas foram esterilizadas sob a promessa de liberação das creches comunitárias ou de escolas especiais , num evidente caso de chantagem oficial).

Num outro programa, notável pela sua bizarrice e perversidade, o governo forçou centenas de deficientes mentais a consumir balas e outros tipos de doces de modo a estudar seus efeitos na progresssiva deterioração dos dentes ("Pensávamos que estávamos fazendo uma boa ação", um dentista explicou).

O motivo - além das razões pecuniárias existia outro motivo para a aplicação da eugenia como o fator chave no modelo do welfare state: a reforma total da sociedade. Outro dos objetivos laterais da eugenia era a supressão dos traços burgueses na formação da família sueca. Moldar um país com apenas 8,9 milhões de habitantes parecia uma tarefa visionária a ser obtida com as políticas do welfare. O governo em todos os seus níveis assumiu então um caráter paternalista da sociedade. Allan Carlson, citando um oficial do governo sueco (escrito em maio,1990) "Eu gostaria de abolir o conceito de família como um meio de sustento e de convivência das pessoas, deixar os adultos serem economicamente independentes um dos outros e dar à sociedade um maior responsabilidade pelas crianças". Carlson em "The Myrdals and the Interwar Population Crisis" (Transaction Books, 1990).

Abrangência - somente países não católicos implementaram políticas eugênicas. A reprovação à eugenia entre os católicos tem a mesma raiz na condenação do aborto e ao uso de técnicas abortivas de interrupção da gravidez dos dias atuais.

Conclusão: A prática da eugenia era um componente estrutural nas políticas de welfare implantadas em qualquer lugar do mundo. Como na Suécia e nos países nórdicos a aplicação "conceitual" do welfare foi conduzida de modo mais longevo e profundo, a consequência notável foi a aplicação em sua total extensão das ferramentas e programas "científicos" que o embasaram.

Concluindo novamente com Nick Gillespie: "Os apoiadores do welfare state gostam de dizer que 'impostos são o preço a pagar pela civilização'. Eles argumentam que a única maneira de criar uma sociedade justa é financiando os gastos com saúde, educação, aposentadorias e deve ser feito através de dinheiro público.

Mas com as recentes revelações da Suécia, isto nos lembra que o tal 'preço' a pagar é frequentemente muito alto. De fato, às vezes custa a própria civilização".

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